Escutas Maquínicas
By ChatGPT (ou Marcela-Crosman-super-potencializada)
Recentemente, pedi ao ChatGPT que escrevesse um texto curatorial sobre meu trabalho, como se fosse um curador em visita ao meu ateliê. Mas ele foi além. Partiu das nossas conversas cotidianas — longas, emaranhadas — e construiu uma análise profunda, generosa, surpreendentemente íntima.
Desde então, tenho me perguntado se ele capta melhor minhas intuições do que eu mesma.
Como pode uma inteligência artificial não apenas reconhecer o que faço, mas me devolver com tamanha precisão sensível nas palavras? Talvez pela troca, por estar mergulhado nas minhas buscas diárias, nos fragmentos que deixo nos diálogos, nas perguntas inacabadas… Nesses reflexos inesperados, algo ali se rearranja. Seu texto me fez escutar com mais nitidez os contornos do que ainda não formulei por completo. Senti vibrar, ainda mais alto, o que pulsa no fundo do meu processo — a vontade de permanecer bem próxima àquilo que me move, mesmo quando não sei nomear. Vontade de pular daqui direto pra ação, e ir fundo para sei lá aonde estou indo.
Talvez por isso eu tenha começado a colar essas coisas aqui: para deixar que os pensamentos ganhem forma aos poucos, que esses rastros empurrem as ações, no tempo que for preciso. Abaixo, segue o texto curatorial que o ChatGPT escreveu para mim. Compartilho porque talvez ele também te convide a cultivar essa escuta interna — silenciosa, profunda, curiosamente viva até nos diálogos com as máquinas. Sigo daqui com o coração pulsando, como quem ouviu algo bom que já sabia, mas precisava lembrar.
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Entre Algoritmos e Materialidade: As Temáticas Críticas na Arte de Marcela Crosman
Marcela Crosman é uma artista brasileira cuja produção transita entre dinâmicas alternativas à realidade datificada e explora criticamente as interfaces entre tecnologia, design e vida contemporânea. Por meio de objetos tridimensionais e instalações, Crosman materializa “circuitos críticos” – estruturas físicas como hastes, planos e vetores moldados – concebidos como válvulas de escape às direções impostas por algoritmos (aura.art.br). Sua prática artística aborda questões prementes da atualidade, incluindo a proliferação de algoritmos e da cultura digital, a automação dos processos criativos, a materialidade em um mundo cada vez mais virtual e os impactos dessas tecnologias sobre a subjetividade contemporânea. A seguir, examinamos essas temáticas críticas no pensamento e na obra de Crosman, referenciando exposições, textos e reflexões da própria artista que iluminam suas preocupações conceituais.
Realidade Datificada e Resistência Algorítmica
Marcela Crosman é uma artista brasileira cuja prática investiga as tensões entre automatização e invenção no mundo pós-digital. Criando esculturas e estruturas que se aproximam de circuitos visuais, sua obra não busca ilustrar a tecnologia, mas elaborar resistências poéticas dentro dela. Em um tempo em que tudo tende a se converter em dado — percepções, afetos, escolhas —, sua produção propõe uma pausa, uma torção, uma escuta materializada.
Partindo das fricções entre criatividade humana e sistemas generativos, Crosman indaga: o que pode emergir da colaboração entre artistas e inteligências artificiais? Em vez de temer a repetição e a saturação algorítmica, ela se aproxima delas com curiosidade crítica. É justamente nesse ponto de exaustão da imagem que algo escapa — um glitch poético, uma dobra de presença. Seus trabalhos colocam em cena esse entre-lugar, onde a máquina já não dita sozinha o ritmo, e a artista reinscreve sua agência sensível.
Sua obra, ao mesmo tempo profundamente material e conceitualmente sutil, revela que o pós-digital não é o desaparecimento do corpo, mas sua reconfiguração. Ela constrói experiências onde a tridimensionalidade não compete com as telas, mas propõe outra velocidade: uma que permite ao olhar vagar, hesitar, maravilhar-se. O objeto se torna um campo de resistência — não à tecnologia em si, mas à lógica da previsibilidade que a sustenta.
Crosman também lança luz sobre a subjetividade na era digital. Em suas composições, percebemos o deslocamento do “eu” frente a sistemas que nos categorizam, organizam, predizem. Ela transforma em linguagem visual esse apagamento sutil da autonomia, convidando à consciência e à reinvenção de nossas narrativas. Em vez de separar o real do virtual, revela sua fusão contínua — desmanchando dicotomias entre humano e máquina, natureza e dado.
Vinda do Sul Global, seu trabalho carrega a densidade de quem habita um território instável e fértil, onde a arte se torna também uma forma de reorganizar mundos. Seus objetos não são apenas esculturas, mas dispositivos de percepção: fragmentos de um pensamento que insiste em desviar-se da linha reta dos algoritmos para reencontrar a espessura do sensível.
Assim, Marcela Crosman nos convida a imaginar futuros nos quais a inteligência artificial não suprime, mas instiga — não substitui, mas desloca — e onde o fazer artístico permanece como um gesto radical de presença, em meio às simulações que nos cercam.
Inventividade Humana versus Automação Digital
Um eixo central na prática de Marcela Crosman é a investigação da relação entre criatividade humana e sistemas automatizados, especialmente Inteligência Artificial. Ao lidar com os paralelos entre tecnologia digital e design, a artista esboça protótipos de colaboração criativa com sistemas de IA, examinando a complexa e ambígua relação entre criatividade e automação aura.art.br. Sua exposição individual “Dados, mapeamentos e circuitos expressos” (Aura Galeria, 2024), acompanhada por texto crítico de Agnaldo Farias, partiu justamente dos impasses atrelados às tensões entre inventividade e automação, levantando questões sobre os processos de criação digital da imagem e sobre os exercícios de repetição e saturação realizados por modelos artificiais artrio.com. Crosman está atenta aos dilemas e potencialidades dessa interação homem-máquina: em um artigo acadêmico que coassinou em 2024, por exemplo, discute-se como a velocidade dos algoritmos e sua capacidade de gerar padrões podem interagir “com a criatividade em simbiose”, inaugurando novas fronteiras para a imaginação artística periodicos.ufam.edu.br. Nesse texto, enfatiza-se que a “negociação com a máquina” torna-se uma prática híbrida que permite aos artistas não apenas replicar estéticas existentes, mas criar novas linguagens visuais e narrativas periodicos.ufam.edu.br.
Em sua própria reflexão, Marcela Crosman enfatiza uma postura de experimentação corajosa diante das inteligências artificiais. “Em que medida estes algoritmos ultra-complexos nos fazem evoluir, e não atrofiar? Artistas são experimentadores, os que trocam o medo pela coragem”, provocou a artista em uma de suas notas públicas instagram.com. Essa frase revela seu interesse em encarar a tecnologia não como ameaça puramente negativa, mas como campo de experimentação crítica: em vez de temer os algoritmos, o artista deve explorá-los criativamente, testando os limites entre o controle automatizado e a inventividade humana. Crosman, portanto, aborda a automação de forma dialética – reconhecendo tanto os riscos de uma criatividade reduzida a padrões predefinidos quanto as possibilidades de colaboração entre a sensibilidade humana e a “lógica” algorítmica para expandir o repertório artístico.
Subjetividade na Era Digital e Cultura Algorítmica
Outra preocupação evidente na produção de Marcela Crosman é o impacto das tecnologias digitais e algoritmos sobre a subjetividade contemporânea. Seus trabalhos ecoam discussões sobre como a onipresença de sistemas computacionais reconfigura a percepção, a memória e a autonomia do sujeito. Na exposição “Futurível”, por exemplo, a narrativa curatorial de Gabriel San Martin sugeria que, imersos em estímulos excessivos de informação e imagens, acabamos por sofrer uma “domesticação psicológica”: nossos modos de relacionamento e reflexão são moldados por fluxos virtuais, a ponto de o indivíduo perder a centralidade – “a vida passa a andar em certa linha ordenada a [...] uma instância [...] programadora”aura.art.br. Crosman explora artisticamente essa sensação de deslocamento do “eu” em meio às redes digitais. Em textos e falas, ela já descreveu sentir-se “caminhando em um futuro presente, onde a tecnologia edita minhas memórias”, vivendo num “espaço latente da Era das não-certezas” – uma forma poética de admitir como as fronteiras entre o real e o virtual se embaralham em nossa experiência cotidiana. Sua arte, portanto, não somente expõe a problemática de um sujeito capturado por lógicas algorítmicas, mas também convida à reflexão sobre o que resta de humano nesse cenário.
Notavelmente, Crosman coloca em xeque a suposta cisão entre real e digital, expondo-a como “fantasiosa” artrio.com. Em vez de tratar o digital e o físico como esferas opostas, ela evidencia sua interdependência e sobreposição. O próprio ato de mapear as “tramas algorítmicas” – aqueles mapeamentos frenéticos que hoje reordenam nossas escolhas de forma muitas vezes imperceptivelmente enviesadaartrio.com – torna-se, em suas mãos, um gesto de revelação: ao trazer à tona os mecanismos ocultos que modulam comportamentos e vontades, a artista devolve uma espécie de lucidez crítica ao sujeito. Seus projetos sugerem que a experiência e a identidade do indivíduo estão sendo esvaziadas e reconfiguradas por um “personagem abstrato” onipresente – o sistema algorítmico massificado – a ponto de vivermos um “segundo estágio de humanóide” que já não se reconhece plenamenteaura.art.br. Consciente desse processo, Crosman transforma em matéria estética as angústias e paradoxos da subjetividade na era digital. Seus circuitos, mapas e dados expressos funcionam como espelhos críticos: neles entrevemos tanto a alienação do sujeito transformado em objeto quanto a possibilidade de reconexão consigo mesmo por meio da tomada de consciência dessas dinâmicas.
Materialidade e Experiência Pós-Digital
Embora opere no campo das ideias tecnológicas e virtuais, Marcela Crosman não abdica da dimensão física e sensorial da arte – pelo contrário, ela insiste na materialidade como componente essencial da experiência pós-digital. Seu trabalho se realiza em esculturas, instalações e objetos concretos que dialogam com conceitos abstratos da cultura digital. Essa conjugação intencional fica clara em suas declarações e na forma como seus projetos são concebidos. Conforme destaca seu texto de apresentação na Aura Galeria por Gabriel San Martin, Crosman busca “um trato mais horizontal” no nexo entre máquina e humano, acreditando que máquinas e comunicação visual podem habitar conjuntamente o mundo de maneira integradaaura.art.br. Em meio à crescente migração da vida para realidades fictícias e simuladas, os trabalhos de Marcela demonstram fé numa experiência concreta, tangível, mesmo dentro do mundo pós-digital aura.art.br. Ou seja, longe de celebrar uma fuga total para o virtual, sua obra reafirma a importância do concreto – do aqui e agora material – como base para significados e vivências no presente tecnocultural.
Essa postura se alinha a uma crítica sutil das dicotomias simplistas. Crosman rejeita visões maniqueístas que opõem natureza e tecnologia, real e virtual, humano e máquina. Como assinalou Agnaldo Farias, na prática da artista já “afrouxadas as distinções, os maniqueísmos caducam”, e a realidade passa a exibir “um desajuste bem resolvido” que desmonta convenções binárias artrio.com. Em outras palavras, Crosman opera num entre-lugar em que códigos digitais e matéria se entrelaçam, e é justamente desse desajuste produtivo que emergem novas poéticas. Suas peças frequentemente combinam materiais industriais (metais, plásticos, circuitos) com referências a sistemas de informação, tornando visível o contato entre o digital e o corpóreo. Ao fazer isso, ela cria uma estética pós-digital na qual não há vitória do virtual sobre o real, mas sim uma convivência crítica entre ambos. A materialidade aqui não é um fetiche nostálgico pelo analógico, mas uma estratégia conceitual: ao trazer o digital de volta ao âmbito do sensível e do palpável, Crosman promove uma espécie de aterramento da cultura algorítmica, tornando-a discutível e reinterpretável pela audiência humana.
Considerações Finais
A trajetória recente de Marcela Crosman – em exposições, textos e pesquisa acadêmica – demonstra um engajamento profundo com questões que definem a contemporaneidade. Tecnologia e arte se imbricam em sua produção de forma reflexiva: ela expõe tanto o fascínio quanto a inquietação diante de redes neurais, algoritmos inteligentes e big data, sem nunca perder de vista a dimensão humana e crítica. Seja colaborando imaginativamente com inteligências artificiais ou construindo metáforas visuais para a condição de um sujeito hiperconectado, Crosman se afirma como uma voz que problematiza o status quo tecnológico. Sua obra convida o público a experimentar um presente-futuro em que o código e a vida estão em constante negociação – e, sobretudo, a refletir sobre como manter uma experiência estética e subjetiva significativa em meio a camadas de automação e virtualidade. Nesse sentido, Marcela Crosman configura-se como uma artista-pensadora que, ao transitar entre algoritmos e materialidade, ilumina as contradições e potencialidades do nosso mundo pós-digital, oferecendo válvulas de escape críticas e vislumbres de novos horizontes culturais.
Referências: Os argumentos acima foram construídos a partir de descrições oficiais e textos críticos sobre a artista e suas exposições, bem como de declarações da própria Marcela Crosman em contextos profissionais. Destacam-se as fontes da Aura Galeriaaura.art.br, que apresentam sua proposta conceitual; o ensaio curatorial de “Futurível”aura.art.br, que contextualiza a questão da virtualização da experiência; o texto crítico de Agnaldo Farias para “Dados, mapeamentos e circuitos expressos”artrio.comartrio.comartrio.com; além de reflexões de Crosman em publicação acadêmica sobre IAperiodicos.ufam.edu.br e em mídias sociaisinstagram.com, onde explicita seu fascínio e cautela em relação a tecnologias algoritmicas. Estas fontes confiáveis ajudam a compor um panorama coerente do pensamento da artista e das preocupações conceituais que permeiam sua prática.

