Reboot. Estaca zero.
Passa rápido e lê só embaixo:
(Outro dia, minha filha me perguntou... - Mãe, você nasceu em 2000 e quantos? E para seu completo choque, respondi, - nasci em 1983. Ela chocada, arregalou os olhos como escutasse como algo medieval. Percebi ali o abismo de tempo que nos atravessa. A brecha foi entender o quanto me tornei, sem perceber, o elo de transição.)
Viver este tempo de intensa reflexão. Raros são os momentos que a história tropeça sobre si mesmo e precisa reiniciar.
Durante as décadas que me cabe, tudo o que fomos e fizemos deixou rastros. Nossos gestos cotidianos, nossas escolhas estéticas, nossos desejos mais íntimos, cliques distraídos… e pronto, tudo foi registrado, mapeado, convertido em dados.
Nossos corpos, antes orgânicos e livres (em sua imprevisibilidade) passaram a ser trackeados por exames, aplicativos e quantificado em planilhas. Estamos treinando as máquinas — mesmo sem saber. Alimentando algoritmos com nossos hábitos, erros, hesitações e padrões de consumo. A humanidade assim criou estes sistemas que aprenderam a antecipar nossos passos, a sugerir nossos desejos antes mesmo que os nomeássemos.
O passado virou banco de dados. O presente, um fluxo de recomendações. Até nossos sonhos de futuro, uma vez guiados por intuições selvagens ou revoluções imaginárias, já são modelados pelas probabilidades estatísticas.
E agora, neste mundo pré-pronto, aqui estamos: diante da temível página em branco.
Desculpa ser bem clara, mas tudo aquilo que chamávamos de criação humana — o escrever, o desenhar, o compor, o planejar, o decidir — já pode ser automatizado. As ferramentas que um dia serviram para facilitar agora nos colocaram sobre o maior desafio criativo da Humanidade, se re-criar.
É um choque de paradigmas. Uma travessia sem mapa. Uma rota ao infinito.
O que tínhamos era, sim, bem lindo. Fomos cuidadosos em partes e descuidamos em outras tantas. E como toda página mal virada, algumas coisas ficaram por fazer. As guerras geo-políticas estão aí, crise climática, revoltas religiosas, lutas identitárias… Mas o fato é que se olharmos duas casinhas pra frente, o sistema virou a página. O que se apresenta agora a humanidade é um inteiro novo amanhã, não importa qual seu time.
Terra arrasada. Estaca zero. Reboot. Precisamos dar o Start.
Se antes o desafio era produzir, ganhar, escalonar, agora o desafio começa em imaginar o que ainda não foi calculado. Habitar os interstícios entre o previsível e o impossível.
A criação está para além do ato técnico. Suponho que ali na virada do gesto, no desvio de pensamento, no remix dos possíveis. Um salto fora da curva, uma negociação com o não compreendido, lá junto da poética imprevisível.
Neste descompasso espaço-tempo, preciso criar minha rota de fuga, como querer ler mitologias, lá para um solo fértil, da onde brotam minhas criações. Incendeiam…. Shiiiiii…. preciso escrever esta nova estória, (talvez com H maiúsculo, History of Humanity), construir uma boa especulação da sabedoria futura.
Preciso de ajuda para agir em prol de algo saudável, é pra hoje.
Ensaio começar:
Fecho os olhos e o que vejo é uma dinâmica é renovável.
É uma memória metálica em parques de plantas.
É uma arquitetura de formas orgânica que dissolve no ambiente.
É um ciclo latente e harmonioso. As diferenças não são mais ruído, são biodiversidade.
Voltei aqui outro dia, mas agora, ainda é hoje.
Porque descobri estas arquiteturas impossíveis.
Deve ter sido fruto das tonturas depois de subi com os olhos as escadas dos quadros do Escher. Logo já escutei o trim - que nunca ouvi, ao encostar nos metais estirados nas verticais do Arthur, Lescher. Agora, vai de lopping in lopp. Vai direto, na cauda do cometa entre cada pensamento e suas intenções.
Calma, o ritmo é lei, terei que voltar ao meu note para retomar a (real) sanidade… e acredita? A retomada é entender que vim secreto escrever à public. Veja, é uma arquitetura impossível ao vivo, mais um brecha digital: Atrair a atenção é motriz, é estar em fluxo, estamos agora juntos e num possível fim.
Siga a passagem, meu f(utu)ru-to... por ali, vai muito além.


